A Escola que queremos. Qual?
Prof. Dr. Adonai César Mendonça
Sempre que discutimos o destino que queremos dar para a escola em nossos projetos deparamos com esta questão: qual a escola que queremos? Em meio a todas as propostas a que parece hegemônica é aquela que afirma o desejo de “formar cidadãos críticos para viverem em sociedade” Mas será que nesta discussão tomou-se como parâmetro o modelo de sociedade vigente, ou o modelo que se deseja, e ainda qual a relação existente entre educação e sociedade? Partindo deste ponto e a título de colaboração para futuras discussões e entendimentos, procuro alinhavar alguns dos muitos pontos desta relação.
Há três concepções que procuram entender a relação educação e sociedade: a educação como redenção, a educação como reprodução, e a educação como uma transformação da sociedade, e cada uma delas vê a educação sob um prisma e orienta as ações educativas que acontecem no seio da escola.
A educação como redentora da sociedade
A educação como redenção, compreende que a sociedade é um todo orgânico e harmonioso onde vivem os indivíduos. A sociedade está naturalmente composta, mas há os que por algum motivo estão à sua margem, e é tarefa da educação incluí-los através da formação de sua personalidade, do desenvolvimento de suas habilidades e dos valores éticos. Adotando esta posição de redentora da sociedade a educação a mantém e a conserva.
Desta forma, a finalidade da educação é a adaptação do indivíduo à sociedade. Quase que exterior à sociedade interfere nos destinos do todo social, dando soluções para os males da sociedade. Assim há um “otimismo pedagógico” ao se pretender que a marginalidade é um problema que a educação pode resolver, mas a escola por melhor que seja, sozinha, não consegue dar conta de tudo a que se propõe.
Um exemplo desta concepção de Educação está em Comênio que em sua obra, parte da compreensão de que o mundo foi criado bom e harmonioso por Deus. A humanidade por desobediência introduziu o desequilíbrio nesta harmonia. Deus enviou seu filho, o Cristo, para a salvação da humanidade e a volta a este equilíbrio, porém em vão. Cabe, pois à educação a recuperação da harmonia perdida. A remissão da sociedade está nas mãos da educação.
Este “otimismo” esteve e está presente em diferentes graus no pensamento educacional brasileiro, principalmente nas escolas que têm orientação tradicional, que acredita no inatismo, isto é, que certos indivíduos nascem com determinados “dons”, ou são “mais inteligentes que outros", ou ainda que certos indivíduos “não dão para o estudo”; na escola Nova que acreditava que com uma educação qualificada e com o atendimento às diferenças individuais, seus educandos teriam melhores oportunidades no mercado de trabalho, e que também poderia produzir boas lideranças; pelo tecnicismo que acreditava que o desenvolvimento do país seria possível se tivéssemos escolas bem administradas, como se fora uma empresa, e pelo entendimento que educar é reforçar comportamentos programados e esperados. Saviani (1983) denomina esta concepção redentora de “teoria não crítica da educação” pelo fato de não contextualizar criticamente a educação dentro da sociedade da qual ela faz parte.
A educação como reprodução da sociedade
Esta concepção entende que a educação fazendo parte da sociedade reproduz e perpetua seus condicionantes econômicos, sociais e políticos vigentes. Saviani (1983) a denomina de teoria crítico-reprodutivista da educação, pois além de reproduzir a sociedade em seu modelo a faz à partir das variáveis condicionantes.
Para esta concepção a sociedade capitalista é estruturada na divisão de classes.
As classes economicamente fortes desejam exercer uma dominação das classes menos favorecidas para manterem o fluxo de mão de obra necessário à produção dos bens a serem comercializados, e também para manterem os rumos que a sociedade deve trilhar e que foram traçados por eles. Para tanto controlam campos culturais como as ciências, a tecnologia, a política e a economia. Com o intuito de manter esta dominação e também de reproduzir a realidade que lhes interessam, controlam através do Estado, tudo o que passa pela Escola, e esta funcionam como uma agência de inculcação das idéias dos grupos dominantes legitimando a marginalização das demais classes sociais.
Na sua tarefa de manter a sociedade vigente, as classes dominantes se preocupam em reproduzir a mão-de-obra do ponto de vista quantitativo, e também qualitativamente através da formação profissional segundo as necessidades da divisão social do trabalho. Neste quadro o Estado além de organizar, planejar e administrar a Escola determina também seus objetivos, conteúdos, metodologias e controla sua execução e resultados. Desta forma, numa posição de “pessimismo pedagógico” poder-se-ia dizer que, por mais que lutem, melhorem suas atividades docentes, estudem e avancem em seus métodos, os professores estarão sempre reproduzindo a ideologia dominante, mesmo que inconscientes, ou ainda quando “adotam” (ou são adotados) um livro didático que contém a ideologia dos dominantes, ou ainda quando ajudam a implantarem novos projetos educacionais sem a devida análise crítica de seus propósitos.
Educação como transformação da sociedade
Esta concepção compreende a educação como mediadora de um projeto social. Não redime nem reproduz a sociedade, mas constitui-se de um meio para realizar um projeto de sociedade. Numa visão crítica compreende que pode trabalhar pela democratização da sociedade com seus determinantes e condicionantes e pela sua transformação política, social e econômica. Como é crítica poderá, através desta mediação, servir a um projeto de libertação das maiorias dentro da sociedade, que utiliza as suas próprias contradições para trabalhar pela sua transformação.
É uma concepção de educação de difícil implantação se pensarmos que o sistema está fortemente carregado com ideologias reprodutivistas, tanto nos projetos e rotinas pedagógicas como também no inconsciente dos educadores, vítimas que fomos da formação tecnicista que recebemos. Porém é ela que se presta à educação dos alunos oriundos das classes menos favorecidas, pois pretende dar-lhes uma visão crítica da sociedade vigente e também uma formação tão esmerada quanto é oferecida aos das classes mais abastadas, podendo assim competir em pé de igualdade pelas oportunidades que a vida oferece.
|